
Foto: Fabio Rodrigues/Agência Brasil
A ministra Cármen Lúcia iniciará
sua segunda passagem pelo comando do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em um
ponto crítico da relação entre a corte e o Congresso, com possibilidade de
cassação de senadores e da contraofensiva patrocinada pelo Senado ao Judiciário.
A partir do começo de junho,
Cármen irá suceder o ministro Alexandre de Moraes, que preside o TSE desde
2022. O tribunal tem presidência rotativa entre os membros do STF (Supremo
Tribunal Federal), e a ministra deve ficar à frente dele até meados de 2026.
Nos últimos meses, Moraes tem
tentado pacificar a relação com os senadores com acenos ao Legislativo em
decisões da corte e, também, ampliando a interlocução com o presidente do
Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
Embora os ataques de
bolsonaristas ao Judiciário sejam mais direcionados ao STF, é o TSE que tem a
atribuição de tomar decisões que influenciam diretamente nos mandatos políticos
—como o julgamento de ações que podem levar à perda dos cargos e a convocação
de novas eleições.
Nas últimas semanas, Pacheco
teve conversas com Moraes com o objetivo de evitar que a corte retirasse o
mandato de dois senadores sob risco de cassação: Jorge Seif (PL-SC) e Sergio
Moro (União Brasil-PR).
Nas conversas, Pacheco pediu a
Moraes que ambos fossem tratados pelo tribunal como senadores eleitos por seus
estados, e não como militante bolsonarista (no caso de Seif) ou ex-juiz da
Operação Lava Jato (no caso de Moro).
O diálogo tem dado resultados.
No último dia 30, o TSE suspendeu o julgamento de Seif. O relator, ministro
Floriano de Azevedo Marques, pediu a produção de mais provas sobre o caso e
paralisou a análise do processo.
Floriano foi indicado ao TSE por
Moraes e seu voto foi interpretado como uma forma de reduzir o atrito com o
Congresso, apoiado pelo presidente do tribunal. O ministro também é relator do
processo contra Moro e deve apresentar seu voto na próxima semana.
Outro aceno de Moraes veio na
decisão que liberou os perfis nas redes sociais do senador Marcos do Val
(Podemos-ES) após quase um ano de suspensão. Segundo interlocutores, Moraes
ligou para Pacheco para comunicar o desbloqueio.
Apesar dos posicionamentos
progressistas que marcaram a trajetória de Cármen Lúcia, bolsonaristas elogiam
a discrição e a competência da ministra. Adjetivos como preparo e seriedade
também foram usados pelos parlamentares para descrevê-la.
"Nós esperamos que ela seja
isenta, que pratique a lei. Quem tiver a culpa, que pague sua culpa. Mas que
não veja a sociedade com olhar vesgo, zarolho, desequilibrado", diz
Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição no Senado.
"O que a gente espera é que
não haja mais a fulanização do processo; um único espectro ideológico dentro do
embate político renhido. Só esse espectro ideológico infringe a lei? Só ele é
acusado de notícias falsas? Me parece uma coisa desproporcional,
desequilibrada."
A magistrada tem dito que sua
gestão será marcada pelo combate à desinformação nas eleições municipais deste
ano —provavelmente o ponto alto de sua presidência, já que o ministro Kassio
Nunes Marques, atual vice-presidente, estará à frente da Corte no pleito de
2026.
Antes disso, porém, a
pacificação iniciada por Moraes será testada no âmbito do processo aberto para
investigar notícias falsas relacionadas à tragédia no Rio Grande do Sul. Cármen
Lúcia foi sorteada relatora do caso no Supremo.
Um dos alvos do pedido do
governo federal é o senador Cleitinho (Republicanos-MG), que compartilhou a
informação de que caminhões com doações estavam sendo barrados pelo governo
gaúcho por falta de nota fiscal.
Durante a semana, o bolsonarista
se defendeu na tribuna do Senado e recebeu o apoio de Pacheco. "Estamos
muito convencidos de que vossa excelência não praticou ilícito algum na
abordagem que fez em relação a esse tema", disse o presidente.
A oposição tem recorrido a uma
metáfora do futebol para falar do Judiciário. Um senador diz que árbitro bom é
aquele que passa despercebido em campo durante a partida.
A composição do plenário do TSE
também reduz a força de Cármen para tomar decisões com potencial de irritar
essa ala do Senado.
Com a saída de Moraes, o
ministro André Mendonça, que foi indicado por Bolsonaro, se tornará titular do
TSE. A terceira vaga destinada aos integrantes do STF é justamente a de Nunes
Marques, igualmente indicado pelo ex-presidente da República.
Os dois ministros do STJ
(Superior Tribunal de Justiça) que compõem o TSE também são vistos como
conservadores: Raul Araújo, o corregedor do tribunal, e Isabel Gallotti.
Por Bahia
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