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A prática
da vaquejada, reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por meio de uma
emenda em 14 de março de 2024, como uma atividade esportiva e cultural, tem
impulsionado tanto a economia quanto a cultura de diversos municípios da Bahia.
A decisão da Corte reforçou a importância da vaquejada ao manter a Emenda Constitucional n.° 96/2017, que
inseriu na Constituição o reconhecimento da vaquejada como patrimônio cultural
imaterial brasileiro.
A
vaquejada consiste em uma disputa na qual os vaqueiros tentam derrubar o boi,
puxando o animal pelo rabo. Com regulamentação, critérios de capacitação e
saúde dos animais, o esporte tradicional nordestino impulsiona a economia e a
cultura em diversos municípios da Bahia.
É o que
diz Leonardo Almeida, presidente da Associação Brasileira de Vaquejada (ABVAQ)
ao Bahia Notícias. Advogado, o cearense conta que a associação surgiu para
lutar pelo reconhecimento da prática cultural nordestina, nos termos jurídicos.
“Na
época, o Supremo entendeu que ela [a lei
cearense] não poderia subsistir no mundo jurídico nacional e,
portanto, a declarou inconstitucional. Foi com esse propósito que, em 2014, nós
reativamos a ABVAQ. Ela já existia, mas estava inativa e foi reativada com o
propósito exatamente de defender a vaquejada, de criar todo esse arcabouço
legislativo, jurídico que hoje protege a vaquejada e que recentemente, o
Supremo Tribunal Federal referendou como válido”, explica.
Oficialmente vinculada ao Ministério da Agricultura, a Associação Brasileira de Vaquejada é responsável por regulamentar e capacitar todos os eventos e profissionais da vaquejada pelo Brasil. Nas regras estabelecidas pela organização, o bem-estar e a saúde animal, sejam cavalos ou bois, é um dos principais tópicos.
Com dois
grandes circuitos em atividade, o Circuito Valmir Velozo (CVV) e o Campeonato
Baiano de Vaquejada (CBV), o esporte atrai competidores de todas as regiões do
Brasil, principalmente do Nordeste. Os prêmios chegam a cifras milionárias.
O
Circuito Valmir Velozo é atualmente o maior da Bahia, contando com 11 etapas
anuais e uma premiação superior a R$ 1 milhão. “O CVV não só democratiza o
acesso ao esporte, como também movimenta a economia. Cada etapa gera empregos
diretos e indiretos, fomenta o turismo e beneficia o setor de hotelaria,
ambulantes e comerciantes locais”, destaca.
Com
grandes programações, os valores custam muito caro. Contudo é
preciso ter ponderação na desigualdade no estado, como lembra o
representante da CBV. "Para mim o modelo de ter presidente é problemático,
eu sempre gosto de ressaltar isso. O pessoal me chama de presidente, mas a
realidade é que temos que ser mais democráticos aqui na região. Uma realidade
de uma corrida não é a maior que a minha de R$ 500 mil. Prefiro dividir o
sucesso com a Bahia, a gente tem que unir as coisas do estado e suas
particularidades", conclui Rocha.
A
REGULAMENTAÇÃO
Com forte teor crítico à prática, entidades e associações pró direitos dos
animais questionaram a decisão do STF, embora os participantes e organizadores
desses eventos garantam a atividade de forma responsável. É o que diz o
presidente da ABVAQ.
“Estamos
avançando agora para garantir também a constitucionalidade das leis criadas,
que foram aprovadas pelo Congresso Nacional e do nosso próprio regulamento.
Porque a partir da existência do regulamento, com regras claras que dizem como
é que os animais devem ser tratados, como eles devem ser transportados, número
de vezes que eles podem correr, ausência de qualquer ferimento no animal, tudo
isso [é importante]”, garante o presidente.
A prática
ilegal da vaquejada é crime, quando realizada de modo irregular sem seguir
critérios garantidos da ABVAQ. A entidade apura e presta uma denúncia formal ao
Ministério Público do estado,
como o caso do “Circuito MS dos Amigos” em Barrocas na região
sisaleira, que sofreu intervenção por parte do MP-BA. Na ocasião, crimes de
falta de preparo técnico e ambiental foram citados na intervenção da promotoria
da justiça.
A fim de
evitar casos como esse, a ABVAQ, visando prevenir práticas inadequadas, realiza
uma atualização em seus regulamentos de fiscalização a cada ano. As diretrizes
abrangem aspectos cruciais como a tabela de pontos, o bem-estar animal e a
segurança dos participantes, e já estão disponíveis para consulta sua página oficial da
associação.
Para o
ano de 2025, foram publicados dois regulamentos oficiais distintos. O primeiro
é um regulamento geral para eventos, que estabelece diretrizes para garantir
contratações técnicas adequadas, além de medidas de prevenção
sanitário-ambiental e higiênico-sanitária, e a segurança geral dos eventos. O
segundo regulamento é específico para o cuidado e garantia do bem-estar animal,
com as práticas fiscalizadas por especialistas nas áreas de zootecnia e
medicina veterinária
ESPORTE
NORDESTINO
Considerando a importância da agropecuária para o desenvolvimento
socioeconômico do país, não é de se estranhar que tantas práticas culturais e
esportivas estejam ligadas ao trabalho diário com o gado e outros animais.
Tourada, vaquejada, boiada e entre outras práticas se entrelaçam como a
representação de um povo.
Especialmente no Nordeste, a habilidade de dominar o gado é uma das principais atribuições de quem trabalha na pecuária do sertão. Em um contexto de caatinga, onde as vegetações são altas, os trabalhadores desenvolvem técnicas para laçar seus bois e controlá-los sem esbarrar em árvores, galhos e pedras altas. Para que essa habilidade se tornasse um esporte não demorou muito, e menos ainda para que se espalhasse pelo país.
“Existe a
percepção que a vaquejada só existe no Nordeste. E quando nós fizemos o
levantamento para mostrar exatamente a força da vaquejada e esse elemento
cultural enraizado no povo brasileiro, nós descobrimos que praticamente todos
os estados do Brasil possuem alguma coisa de vaquejada. São Paulo, no estado do
Rio de Janeiro, Santa Catarina, nós temos vaquejada Roraima, nós temos
vaquejada, Rondônia, Amazonas. Minas Gerais nós temos vaquejada. É algo
sensacional porque demonstra que onde o nordestino vai, ele leva a vaquejada
com ele”, ressalta.
Ou
seja, eventos como o Circuito Valmir Velozo (CVV) e o Campeonato Baiano de
Vaquejada (CBV) atraem competidores de todas as regiões do Brasil,
pois movimentam milhares de reais em prêmios e geram uma quantidade
significativa de empregos diretos e indiretos.
A
preparação para essas competições envolve meses de treinamento intensivo e
deslocamentos, o que acaba estimulando a economia local e regional de maneira
notável. Além do impacto econômico, as vaquejadas são importantes manifestações
culturais, reunindo tradições e costumes do sertão nordestino.
Ao Bahia
Notícias, os representantes dos principais circuitos falam sobre a evolução da
prática. Para o médico veterinário Valmir Velozo, criador do circuito que leva
o seu nome, a evolução foi crescente, especialmente durante os últimos 35 anos
em que se dedicou ao esporte. A carreira que começou como vaqueiro e atleta, o
levou a empreender no nicho.
"Quando
comecei a correr vaquejada, não existiam regras. Então, passei a organizar
corridas com horários definidos, divisão de categorias e participei da criação
das categorias aspirante, amador e profissional, que não existiam antes. Antes,
se você quisesse competir, teria que correr contra os profissionais. Isso
criava uma desigualdade grande”, Velozo explica.
Diante
dessa realidade, Velozo implementou em seus circuitos um sistema de índice
técnico, para equilibrar a competição e evitar que fatores financeiros
determinassem os resultados:
"Na
vaquejada tradicional, quem tem dinheiro leva vantagem, pois pode permanecer
como amador ou aspirante por anos, enquanto quem corre para terceiros é
obrigado a virar profissional. Isso é injusto. No CVV, nós equilibramos as
categorias pelo índice técnico, ou seja, pelo desempenho real do vaqueiro na
derrubada de boi. Assim, independentemente da condição financeira, cada atleta
compete no nível correspondente às suas habilidades", garante o
coordenador.
Enquanto
o CVV implementa um novo modelo de competição, o Campeonato Baiano de Vaquejada
(CBV) surge como uma iniciativa para fortalecer a organização do esporte no
estado. Pedro Rocha, administrador e diretor do CBV, destaca que a competição
nasce da necessidade de criar um campeonato unificado.
“Nunca
houve um Campeonato Baiano de Vaquejada. Sempre tivemos circuitos particulares.
Então, resolvemos chamar os principais parques com credibilidade e estrutura
para participar, a maior edição foi desse ano de 2024”, explica.
Ele conta
que o CBV também pretende fortalecer a regulamentação do esporte, e assim o faz
incorporando a pontuação da Associação Brasileira de Vaquejada (ABVAQ) e da
Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM). “Nos
últimos anos, muitos parques baianos abandonaram a regulamentação da ABVAQ.
Este ano, decidimos resgatar essa tradição e garantir que os cavalos possam
pontuar no ranking nacional”, detalha Rocha.
Um
impulso importante é a Vaquejada de Serrinha, considerada
a maior do Nordeste em termos culturais — com festas e shows — e esportivos, já
que o evento é sediado no maior parte de vaquejada da região: Parque Maria do
Carmo. O evento, organizado por Valmir Velozo, chegou a atrair 40 mil pessoas.
Este e outros circuitos demostram a profissionalização do esporte na
Bahia.
Por Bahia
Notícias