
Foto: Divulgação / ANTT
A ANTT (Agência Nacional de
Transportes Terrestres) enfrenta durante o governo Lula (PT) o desafio de
renegociar contratos de concessão de rodovias federais, que não trouxeram as
melhorias previstas para os usuários. A expectativa é que essas ações possam
resultar em R$ 110 bilhões em novos investimentos nas estradas brasileiras.
Por outro lado, a agência também
recebe duras críticas sobre um "engessamento" do setor de transporte
interestadual de passageiros, dificultando a entrada de novas empresas no
mercado e postergando as discussões sobre os serviços de aplicativos.
A ANTT é responsável por
regular, supervisionar e fiscalizar as atividades de prestação de serviços e de
exploração da infraestrutura de transportes. A agência tem entre suas
atribuições, portanto, atuar com rodovias e ferrovias, lidando tanto com as concessões
para a iniciativa privada quanto com o transporte de cargas e passageiros.
A agência gerencia atualmente 39
concessões, sendo 26 de rodovias federais e 13 ferroviárias. Sobre os trilhos
que estão sob concessão, circularam no ano passado 531 milhões de toneladas de
carga. Os ônibus interestaduais transportaram em 2023 um total de 1,85 milhão
de passageiros.
Na sua fase mais visível para a
população, a agência fiscaliza as concessões de rodovias federais para a
iniciativa privada. Tem a missão, portanto, de detectar e multar casos de
descumprimento de contrato, identificando se as obras previstas estão realizadas
e se a manutenção está em ordem.
Muitos leilões realizados no
passado, no entanto, acabaram frustrando os usuários, que não encontraram as
melhorias desejadas ao longo dos anos. Motoristas e passageiros seguiram
enfrentando trechos perigosos e vias com buracos e sem sinalização, apesar de
pagarem pedágio.
O Ministério dos Transportes, no
governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), busca renegociar esses
contratos mais problemáticos, em um processo que terá a ANTT como um dos
principais órgãos envolvidos. Além disso, o governo federal também busca
realizar pelo menos 35 leilões para passar rodovias federais para a iniciativa
privada
"Tem um grande desafio,
sim, que são os próximos leilões, e um ainda maior, do meu ponto de vista, que
é otimizar os contratos antigos, modernizar esses contratos, para que as
concessões mais antigas possam performar conforme a economia e o dinamismo do
Brasil exigem", afirma o diretor-geral da ANTT, Rafael Vitale Rodrigues.
O diretor-geral cita o exemplo
de contratos em que não há mais investimentos previstos, apesar de as rodovias
apresentarem problemas, e outros que estão sendo empurrados pelas
concessionárias, pois estão previstos para serem encerrados em menos de dez anos.
"Quando eu levei o assunto
para o Ministério [dos Transportes], foi na virada do governo que eu apresentei
para o ministro Renan [Filho], eu citei a ele que havia pelo menos 12 contratos
que precisavam de algum tipo de interferência ou negociação para que eles
pudessem voltar a performar", acrescenta.
Uma portaria do Ministério dos
Transportes abriu a possibilidade para que as concessionárias pudessem se
inscrever e pedir a modernização contratual. Quando o prazo se encerrou, 14
haviam pleiteado. A ANTT calcula que o total dos novos investimentos, com esses
14 contratos, ultrapasse R$ 100 bilhões.
"Deve haver um entendimento
técnico e econômico junto às concessionárias e o Tribunal de Contas [da União],
como órgão controlador, que precisa também concordar para que a gente possa
avançar. Mas podemos falar, seguramente, que vão ser mais de R$ 100 bilhões em
investimentos, duplicações, terceiras faixas, dispositivos, trevos em desnível,
vias marginais, iluminação de travessias urbanas e de trevos", acrescenta.
Apesar de buscar renegociar os
contratos para aumentar os investimentos e a qualidade das rodovias, caiu
drasticamente a quantidade de multas aplicadas pela ANTT a concessionárias que
administram estradas federais.
Em 2021, foram 475 processos com
multa, num valor total de R$ 1,2 bilhão. No ano passado, essa quantidade caiu
para aproximadamente um décimo, com 43 processos com multas que somaram R$ 175
milhões.
A queda na quantidade de multas
acontece em um momento em que a agência enfrenta algumas dificuldades
estruturais, com a redução no orçamento e uma defasagem de servidores.
"A Agência enfrenta cortes
em seu orçamento, o que limita sua capacidade de investir em infraestrutura e
modernização tecnológica e operacional", informou em nota.
A legislação que criou a
carreira da ANTT prevê um quadro com 1.705 servidores, mas atualmente há uma
defasagem de 46% em relação a esse número -com 788 vagas não preenchidas.
"Especialmente nos últimos
anos, houve um processo de enfraquecimento muito grande da fiscalização da
ANTT, com fechamento de postos de fiscalização em várias regiões do país,
redução no número de fiscais, o que sobrecarrega os servidores e impacta diretamente
nos indicadores da agência e na segurança das rodovias", afirma o
presidente do Sinagências (Sindicato Nacional dos Servidores das Agências
Nacionais de Regulação), Fabio Rosa.
"Então, a nossa luta à
frente do sindicato tem sido no sentido de recuperar o protagonismo da agência,
para que a ANTT e as demais agências reguladoras possam exercer com qualidade a
sua missão institucional e preservar a vida da população brasileira",
completa
A ANTT também vem recebendo uma
série de críticas pela aprovação no fim do ano passado do novo marco
regulatório para o transporte interestadual de passageiros -que entrou em vigor
em fevereiro. Há, ainda, reclamações sobre uma suposta influência do Congresso
Nacional sofrida pela agência, em particular de parlamentares ligados a
empresas de transporte de passageiros.
Os nomes citados nos bastidores
são os do ex-senador Acir Gurgacz (PDT-RO), do ex-deputado Ronaldo Carletto
(PP-BA) e do presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). A família deles
é ligada a empresas de transporte de passageiros. Os parlamentares sempre
negaram influência sobre a agência.
"Eu comecei na gestão
Bolsonaro e estou agora na do presidente Lula. Tenho percebido que tanto o
parlamento como o Executivo respeitam bastante a ANTT, e a ANTT respeita muito
as demais instituições, sabe muito bem seu papel, que é o executor de política
pública, e trabalha em total harmonia com todos esses poderes e todas essas
instituições. Eu não vejo nenhum tipo de ingerência política dentro da
ANTT", afirma o diretor-geral
A principal crítica ao novo
marco regulatório é que alguns de seus dispositivos contribuem para a
manutenção do status quo, impedindo a abertura do mercado para novas empresas.
Um dos pontos estabelece que a
abertura de determinada linha para novos atores depende de uma análise de
viabilidade econômica, para ver se aquele mercado comporta ou não a
concorrência.
"Do ponto de vista prático,
você não vai ter uma abertura, não vai ter mais linhas de ônibus, mais empresas
concorrendo", afirma André Porto, presidente da Amobitec (Associação
Brasileira de Mobilidade e Tecnologia).
Ele acrescenta que em 75% das
linhas atuais de transporte interestadual existe um monopólio, com os
passageiros tendo apenas uma opção. E as condições atuais desmotivam a entrada
de novos investidores e perpetuam
"Isso significa serviço com
qualidade inferior, com custo mais alto para a sociedade. Quanto mais
concentrado, maior o preço e menor a qualidade do serviço", afirma.
RAIO-X DA ANTT
- O que é: autarquia vinculada
ao Ministério dos Transportes, com sede em Brasília, que regula, supervisiona e
fiscaliza as atividades de prestação de serviços e de exploração de
infraestrutura de transportes
- Atribuições: além da concessão
de rodovias, a ANTT regula e fiscaliza as concessões de ferrovias, o transporte
coletivo de passageiros interestadual e o transporte de cargas
- Criação: 2001, durante o
governo Fernando Henrique Cardoso
- Orçamento: R$ 564 milhões
(2024)
- Servidores: 917
- Diretores (e quando terminam
os mandatos): Rafael Vitale Rodrigues, diretor-geral (18 de fevereiro de 2025);
Guilherme Theo Rodrigues da Rocha Sampaio (18 de fevereiro de 2026); Lucas
Asfor Rocha Lima (18 de fevereiro de 2028); Luciano Lourenço da Silva (18 de
fevereiro de 2025); Felipe Fernades Queiroz (18 de fevereiro de 2027).
Por Bahia
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